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El Niño muito forte ameaça safra 2026/27: soja, milho, café e pecuária podem enfrentar impactos em todo o Brasil

Fenômeno climático ganha força no Pacífico e eleva o alerta para chuvas extremas, seca e calor intenso, com possíveis reflexos na produção agrícola, nos preços dos alimentos e no mercado global de commodities.
12/07/2026 Redação Portal de Camaquã – Foto: Freepik / Divulgação

A intensificação do fenômeno El Niño acendeu um novo sinal de alerta para o agronegócio brasileiro. As projeções mais recentes indicam que o evento climático poderá alcançar intensidade histórica até o fim de 2026, aumentando o risco de mudanças significativas no regime de chuvas, ondas de calor e eventos extremos em diversas regiões do país.

O cenário preocupa produtores rurais, cooperativas, tradings e especialistas, que já acompanham os possíveis impactos sobre a safra 2026/27 de importantes culturas como soja, milho, café, algodão e cana-de-açúcar, além da pecuária de corte e leite.

O mais recente boletim do Climate Prediction Center (CPC), ligado à NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), aponta que o El Niño continua em fortalecimento e possui 81% de probabilidade de atingir a categoria "muito forte" entre outubro e dezembro de 2026, podendo figurar entre os eventos mais intensos desde o início dos registros climáticos, em 1950. A agência também estima 97% de chance de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027.

Brasil deve registrar impactos climáticos distintos entre as regiões

Historicamente, o El Niño altera o padrão climático brasileiro de maneira desigual. Enquanto os
estados da Região Sul costumam enfrentar chuvas acima da média e maior risco de enchentes, áreas do Norte e parte do Nordeste tendem a registrar redução das precipitações, temperaturas elevadas e aumento do risco de estiagens.

Esse comportamento climático interfere diretamente no calendário agrícola, afetando desde o preparo do solo até o desenvolvimento das lavouras, além de influenciar a logística de transporte da produção e o abastecimento de diversas cadeias produtivas.

Especialistas ressaltam, entretanto, que um El Niño intenso não significa, obrigatoriamente, perdas generalizadas. Os efeitos variam conforme a região, o momento das chuvas e o nível de adaptação dos produtores.


Soja e milho entram no radar do mercado


Entre as culturas mais sensíveis ao comportamento do clima estão a soja e o milho, responsáveis por boa parte das exportações brasileiras.

O período entre julho e setembro é considerado estratégico para o planejamento da nova safra. Caso as chuvas ocorram de forma irregular ou atrasem, produtores poderão enfrentar dificuldades na implantação das lavouras, aumentando o risco de replantio e atrasando o calendário agrícola.

Um eventual atraso na semeadura da soja também compromete a janela ideal do milho de segunda safra, elevando a exposição da cultura à falta de chuvas durante o enchimento de grãos. O algodão pode enfrentar situação semelhante.

Em relatório recente, analistas destacam que, após anos de margens reduzidas e elevada oferta global, o mercado passa a incorporar novamente o risco climático como fator importante para a formação dos preços agrícolas.

Outro ponto de atenção é o equilíbrio entre produção e consumo mundial de soja. Após a safra 2025/26, os estoques globais deixaram de apresentar crescimento significativo, tornando o mercado mais sensível a eventuais perdas de produção em grandes países produtores.

Café acompanha clima com preocupação


A cafeicultura brasileira também observa atentamente a evolução das condições meteorológicas.

Em algumas regiões produtoras de Minas Gerais, chuvas durante o período de colheita já vêm dificultando os trabalhos no campo. Porém, a principal preocupação está voltada para a florada, etapa considerada decisiva para a formação da safra seguinte.

Caso o El Niño provoque alterações importantes no regime de chuvas durante esse período, a recuperação da produção poderá ser comprometida, mantendo a volatilidade dos preços do café, que já acumularam forte valorização nos últimos anos.

Apesar das incertezas, especialistas ainda trabalham com expectativa positiva para a safra 2026/27, especialmente devido à recuperação da produção de café arábica.

Pecuária também poderá sentir os efeitos

Os impactos do fenômeno climático vão além das lavouras. Temperaturas elevadas previstas para estados do Centro-Oeste podem provocar estresse térmico em bovinos, aves e suínos, reduzindo produtividade e desempenho dos animais.

Além disso, eventuais perdas na produção de milho e soja podem elevar os custos da ração utilizada na alimentação animal, pressionando toda a cadeia de proteínas.

No setor leiteiro, análises indicam que o excesso de chuvas no Sul poderá prejudicar a produção em importantes bacias leiteiras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Ao mesmo tempo, períodos mais secos em estados do Sudeste e Nordeste também podem limitar a oferta de leite.

Regiões brasileiras devem enfrentar desafios diferentes

Os impactos previstos variam conforme a localização. Na Região Norte, a redução das chuvas aumenta o risco de queimadas, estiagens severas e dificuldades para culturas como cacau, mandioca, açaí e soja. A queda do nível dos rios também pode afetar o transporte de cargas pelo chamado Arco Norte.

No Matopiba — importante fronteira agrícola formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — a combinação de calor intenso e escassez de chuvas amplia o risco de perdas nas lavouras.

Em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, o principal desafio será a irregularidade das precipitações durante o plantio, aliada às temperaturas elevadas.

Já no Sudeste, culturas como café, cana-de-açúcar, laranja, soja e milho poderão enfrentar um cenário de calor acima da média e chuvas mal distribuídas.

Enquanto isso, os estados do Sul permanecem sob atenção devido ao aumento da possibilidade de temporais, enchentes e maior incidência de doenças fúngicas em culturas como trigo, arroz, soja, milho e tabaco.

Reflexos podem atingir o mercado internacional

As consequências do fortalecimento do El Niño não deverão ficar restritas ao Brasil. Analistas avaliam que condições climáticas adversas na Ásia podem reduzir a produção de açúcar, influenciando as cotações internacionais da commodity.


Já na África Ocidental — responsável por aproximadamente 70% da produção mundial de cacau — o aumento das temperaturas e a redução das chuvas podem provocar estresse hídrico nas lavouras, comprometendo a oferta global e sustentando preços elevados.

Monitoramento será decisivo nos próximos meses

Embora ainda não seja possível estimar com precisão os impactos econômicos e produtivos da safra 2026/27, o consenso entre meteorologistas e especialistas do agronegócio é de que os próximos meses serão determinantes para confirmar a intensidade do El Niño e seus reflexos sobre o campo.


As atualizações da NOAA reforçam que eventos muito fortes aumentam significativamente a probabilidade de extremos climáticos, mas seus efeitos variam entre regiões e não significam, necessariamente, perdas generalizadas de produção.

Diante desse cenário, produtores, cooperativas e agentes do mercado intensificam o acompanhamento das previsões meteorológicas para ajustar estratégias de plantio, manejo e comercialização ao longo da próxima temporada agrícola.

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